Pra não surtar, é preciso respirar fundo, fechar os olhos e ligar o modo automático. Se jogar na multidão, prender a respiração e ter uma dose extra de paciência. Eu conto os dias, para chegar sábado, e tenho vontade de chorar quando chega domingo. Os dias estão mais gelados, molhados e amargos. Isso tudo é culpa do frio, da chuva e da extrema falta de pacto social do governo com a população, e da população com ela mesma.
É revoltante ver idosos sendo esmagados dentro do metrô, e mulheres grávidas lutando pra encontrarem um jeito de entrar nele.
A chuva é boa, é necessária para muitas coisas, e principalmente para dar continuidade no ciclo da vida das pessoas, inclusive garantir vida aos bebês das mulheres grávidas. A chuva garante que os alimentos se desenvolvam, que a terra se fortifique e que no momento de sede tenhamos todos água pra beber. Eu não culpo chuva, não culpo os idosos de pegarem o metrô em pleno horário de pico, e também não julgo os trabalhadores do metrô, afinal, eles trabalham com o que é dado a eles. Mas nesse contexto existe uma coisa mais interna, que se chama falta de educação com o próximo, falta de comprometimento e de respeito ao outro. Isso na verdade também não é culpa apenas do governo, mas também é nossa culpa. É culpa da população que não se dá ao respeito nem nas mínimas coisas corriqueiras, mas que a longo prazo, tem um grande efeito.
Vai geração, vem geração e as pessoas continuam insistindo em errar, em pisar nos outros, em olhar para o próprio buraco. Ninguém quer sofrer, chorar, compartilhar o que é bom, porque, não é mesmo ? Porque dividir com o outro aquilo que é bom, aquilo que te enche de prazer e alegria. Porque ceder? quando se pode ficar por cima e vencer sozinho. Se a base não muda, o topo entorta e nunca mais será o mesmo, enquanto as pessoas não tiverem um pacto social com elas mesmo, o governo jamais vai agir de forma limpa e justa com todos e para todos. E com isso, as grávidas vão continuar implorando por um assento e os idosos se tornando invisíveis aos olhos dos cansados, que sentam e dormem. Afim de ignorar aqueles cabelos brancos, e expressão cansada, de alguém que trabalhou a vida inteira e não merece nem ao menos, um lugar pra sentar.
O povo é tão limitado ao que é imposto e levam tão a risca certas coisas, que muitos acham que o assento preferencial do metrô, é apenas aquele de cor mais escura. E que se está sentado em um assento convencional, não tem obrigação nenhum de ceder teu lugar para alguém que precise. Me desculpe você que achou isso, mas, é o mínimo para pessoas que necessitam de um conforto a mais. O resto fica a cargo da educação que recebeu, ou a falta dela. Acha justo mesmo, um deficiente visual implorar um lugar pra sentar ? Quanto tempo você passa do seu dia sentado ? Deveriamos nos fazer essas perguntas, quando conseguimos sentar, e nos deparamos com alguém que necessita mais do que a gente. Mas infelizmente a consciência do Brasileiro, dificilmente pesa, dói ou sente pena. Somos campeões em ignorar os fatos, passar por cima de outros problemas, e seguir NOSSO caminho, como se todo o universo fosse invisível.
A chuva é ótima para adubar as plantas, regar a vida nos rios, fertilizar a terra, mas a chuva detona com o meu humor, ao perceber que as pessoas se tornam mais individualistas, mais cada um embaixo do seu guarda-chuva, quentinho dentro do casaco caro, a chuva complica o trânsito, porque pegar metrô, se é possível ir de carro, com aquecedor, sozinho é claro, a chuva complica o metrô, faz tudo ser mais lerdo. O caos perfeito, uma mistura de nervoso, stress e decepção toma conta de mim as oito horas da manhã, enquanto me esforço pra refletir sobre tudo isso.O choque vem, ao ver pessoas descalças, com trapos rasgados, implorando também, mas agora por comida. E se todos doacem uma roupa, um cobertor que não usam mais? acabaria com a pobreza e o frio dos mendigos? NÃO, mas se cada um fizesse uma pequena parte, talvez a desigualdade não fosse tão maciça, nem tão triste de se ver logo de manhã.
Também erro, sou humana, brasileira e ainda por cima da zona leste de São Paulo, essa cidade ingrata, escura e maquiada de falsos sorrisos. Falsos sorrisos, falsos comprometidos e falsos preocupados. Somos todos ou quase todos assim, e não adianta xingar o governo, de que nada está fazendo para mudar o país, se o personagem principal da peça, a população não é honesta nem respeitosa consigo mesma, Não muda os hábitos, fingi que nada acontece e fecha os olhos para a realidade. Assim como a moça , que sentada no assento preferencial do metrô, fechou os olhos, ao ver uma idosa franzina entrar. Um pouco mais de caráter por favor, menos cretinagem uns aos outros, pois assim como fechamos os olhos para o próximo, com coisas simples, o governo faz o mesmo conosco diariamente.

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